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Cartilha
de dança
Ao
ancorar o projeto Danças Brasileiras, para o TV Futura,
Antônio Carlos Nóbrega recria um código através
do qual possa se expressar, criar coreografias e representar personagens
Aos
52 anos, Antônio Carlos Nóbrega se considera um artista
próximo da maturidade. As três décadas de
trabalho como cantor, instrumentista e dançarino deixaram-no
íntimo das manifestações culturais brasileiras,
em especial as danças típicas do Nordeste e de Pernambuco.
Ao mesmo tempo, seu corpo está num estágio de agilidade
e domínio de movimentos que talvez não se mantenha
intacto com o passar do tempo. Essa junção de conhecimento
e habilidade motora lhe convenceu de que chegou a hora certa de
uma empreitada ousada na sua carreira: o registro televisivo das
danças brasileiras.
A oportunidade surgiu quando foi procurado pelo diretor Belisário
Franca, que pretendia fazer com a dança um trabalho semelhante
à sua premiada série Música do Brasil, um
inventário de 15 programas e 108 estilos musicais que teve
o hoje ministro Gilberto Gil como mestre-de-cerimônias.
Nóbrega seria o cicerone ideal para guiar o diretor e a
equipe da Giros Produções pelo intrincado universo
das danças, folguedos e brincadeiras do país. A
série Danças Brasileiras já tem verba garantida
para seis programas de 30 minutos, mas a idéia é
realizar 11 episódios a serem exibidos pelo Canal Futura.
Serão mostradas representações artísticas
onde a dança esteja fortemente presente.
Os seis primeiros programas devem ser veiculados no final deste
ano, seguindo um roteiro temático: cultura indígena
(toré e caboclinho); frevo e capoeira; bois (cavalo-marinho,
reisado, boi-bumbá); maracatu; samba (carioca, de roda
e de parelha). O sexto será gravado em São Paulo
e mostrará o trabalho de recriação que Nóbrega
e sua esposa, a também dançarina Rosane Almeida,
farão a partir de todo o material pesquisado. Quando a
segunda etapa for viabilizada, será a vez de ritmos, como
as congadas, o moçambique, o coco, danças do Sudeste
e batuques, como o tambor de crioulo.
A presença de Antônio Carlos Nóbrega nas gravações
se reveste de um caráter "paulofreiriano", nas
palavras do diretor Franca. Ele ora brinca, ora ensina. Enquanto
ensina, aprende. Em Nazaré da Mata, por exemplo, ver de
perto o Maracatu Leão Misterioso foi enriquecedor para
o brincante. Numa conversa com Mestre João Paulo, Nóbrega
percebeu a sutil diferença entre a dança do caboclo
e a dança para arreia-mar. A primeira é mais solta,
mais ágil, pois o dançarino não precisa carregar
o surrão. Este caráter pedagógico é
um dos fatores que mais animam o artista.
"Ardência orgíaca" - Naturalmente, Pernambuco
ganha destaque na série. Não por ser o Estado natal
do artista, mas por sua óbvia riqueza e diversidade de
ritmos. Aqui estão o maracatu nação, o maracatu
rural, o caboclinho, o cavalo-marinho, o coco. E o frevo. Segundo
Mário de Andrade, citado por Valdemar de Oliveira em O
frevo e o passo, de Pernambuco (Boletim Latino-Americano de Música,
abril de 1946), "a vibração paroxística
do frevo é realmente uma coisa assombrosa (...) É,
sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca
mais dionisíaca de nossa música nacional (...) É
um verdadeiro título de glória, que o país
ignora, simplesmente porque entre nós ainda são
muito raros os que têm verdadeira convicção
de cultura". Desde que iniciou o périplo, em dezembro,
a trupe já esteve em Aliança, visitando o cavalo-marinho
de Mestre Biu Roque; em Nazaré da Mata, registrando o encontro
dos maracatus Leão Misterioso e Cambinda Brasileira; e
numa acanhada travessa do bairro de Água Fria, no Recife,
sede do caboclinho Sete Flexas. As câmeras captam tudo,
mas o olhar é dirigido principalmente à dança.
Porém, antes de desembarcar em Pernambuco, o circo de Nóbrega
e Belisário passou pelo Sítio Baixio Verde, no Crato
(CE), onde entrou em contato com o reisado de Mestre Aldenir.
A segunda parada foi em Mussuca, distrito da cidade histórica
de Laranjeiras, em Sergipe, onde o grupo registrou o samba de
parelha. Para Nóbrega e Rosane, participar das gravações
como dançarinos é uma forma de enriquecer o projeto,
mostrando dois artistas em processo de assimilação
de passos e movimentos. "Como já tenho intimidade
com muitas dessas danças, especialmente as pernambucanas,
o projeto se insere em nossa trajetória de reelaboração
de uma nova linguagem, um código através do qual
possamos nos expressar, criar coreografias e representar personagens.
O registro dessas danças é quase como o registro
de nosso aprendizado ao longo dos anos", define o criador
de Tonheta. Um dos olhares possíveis, a partir do material
coletado, seria reunir passos de várias danças para
criar uma "cartilha geral" de dança brasileira.
Cartilha esta que reuniria um rico amálgama de tradições
indígenas, negras e brancas. Para Nóbrega, esse
foi o plasma que se cristalizou pelo menos nos três primeiros
séculos de nossa existência e adquiriu diferentes
sotaques regionais.
Projetos - Além das filmagens de Danças Brasileiras,
o brincante prepara a excursão de lançamento do
DVD Lunário Perpétuo. E já tem um novo trabalho
a caminho: o Nove de Frevereiro, trocadilho com o Dia do Frevo,
com estréia prevista até novembro, no Recife. O
projeto será composto de show, CD, DVD, oficinas e aula-espetáculo,
tendo como personagem principal o frevo de rua.
Para montar o repertório, Nóbrega vai fazer um apanhado
da história do gênero, desde os primórdios
das marchas, polcas e dobrados até os compositores mais
modernos. A trajetória evolutiva será apresentada
com diferentes formações: quinteto de metais, orquestra
de frevo, orquestra de câmara. O artista pretende, com isso,
expor as possibilidades de reinterpretação do estilo,
que vão muito além do mais conhecido frevo de orquestra.
A ênfase será dada não só ao frevo
enquanto música, mas também ao passo, seu parceiro
indissolúvel. Para Nóbrega, a junção
do passo de frevo com o frevo em si dá o testemunho de
uma música que nasceu casada com uma dança, ambas
de grande complexidade.
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