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Jornal do Brasil - outubro de 2003


João Cabral concreto

Mais um excelente perfil documental é feito no Brasil


O poeta João Cabral disse que gostaria de ter sido cineasta. Porque nos dois ofícios se trabalha com a imagem. Esse pequeno trecho de sua última entrevista, concedida em 1999 a Bebeto Abrantes, parece nortear toda a narrativa de Recife/ Sevilha: João Cabral de Melo Neto. O documentário agarra com sofreguidão cada oportunidade de verter o verbo em coisa audiovisual. Até os depoimentos de poetas e intelectuais (brasileiros e espanhóis) sobre Cabral são entre costados pela pulsão rítmica da música e das imagens.

Nos antípodas do ressecamento promovido por Eduardo Coutinho em seus documentários, Abrantes faz largo uso de efeitos digitais, bravuras de edição e uma trilha musical intensa. Seu filme é uma construção assumida - e bem sucedida. Tudo converge para sensação de concretude que preside a poesia de Cabral. A música de cordas que ouvimos - assim como o flamenco - estão mais próximas da percussão que da melodia. Da mesma forma, os elementos visuais, tributários da videoarte, mostram pessoas, lugares e objetos em fuga permanente, imagens puras e duras sem conotações afetadamente poéticas. A belíssima seqüência das aspirinas é exemplar de uma busca de ícones concretos para cobrir grandes significados na vida e na obra do poeta.

A discussão central do documentário, deixada em aberto, é a influência que as cidades de Recife (a origem, a memória) e Sevilha (a paixão, o exílio) tiveram sobre a poesia de João Cabral. Depoimentos levemente contraditórios como o da filha Inês Cabral e do biógrafo José Castello ajudam a perceber a possível distância entre a condição real do homem e as fantasias que ele erigiu em torno de si. "A vida de um poeta não é feita só de verdades", completa o colega Ledo Ivo. De outra parte, pintores, poetas e intelectuais espanhóis dimensionam a importância da passagem do poeta brasileiro que não foi pouca coisa.

Uma profusão de filmetes domésticos, verdadeiras preciosidades, completa a riqueza de materiais de Recife/ Sevilha. Importante como revelação e apetitoso como exercício de linguagem, o filme de Bebeto Abrantes entra para o rol dos excelentes perfis documentais recentemente produzidos no Brasil.