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João
Cabral concreto
Mais
um excelente perfil documental é feito no Brasil
O
poeta João Cabral disse que gostaria de ter sido cineasta.
Porque nos dois ofícios se trabalha com a imagem. Esse
pequeno trecho de sua última entrevista, concedida em 1999
a Bebeto Abrantes, parece nortear toda a narrativa de Recife/
Sevilha: João Cabral de Melo Neto. O documentário
agarra com sofreguidão cada oportunidade de verter o verbo
em coisa audiovisual. Até os depoimentos de poetas e intelectuais
(brasileiros e espanhóis) sobre Cabral são entre
costados pela pulsão rítmica da música e
das imagens.
Nos antípodas do ressecamento promovido por Eduardo Coutinho
em seus documentários, Abrantes faz largo uso de efeitos
digitais, bravuras de edição e uma trilha musical
intensa. Seu filme é uma construção assumida
- e bem sucedida. Tudo converge para sensação de
concretude que preside a poesia de Cabral. A música de
cordas que ouvimos - assim como o flamenco - estão mais
próximas da percussão que da melodia. Da mesma forma,
os elementos visuais, tributários da videoarte, mostram
pessoas, lugares e objetos em fuga permanente, imagens puras e
duras sem conotações afetadamente poéticas.
A belíssima seqüência das aspirinas é
exemplar de uma busca de ícones concretos para cobrir grandes
significados na vida e na obra do poeta.
A
discussão central do documentário, deixada em aberto,
é a influência que as cidades de Recife (a origem,
a memória) e Sevilha (a paixão, o exílio)
tiveram sobre a poesia de João Cabral. Depoimentos levemente
contraditórios como o da filha Inês Cabral e do biógrafo
José Castello ajudam a perceber a possível distância
entre a condição real do homem e as fantasias que
ele erigiu em torno de si. "A vida de um poeta não
é feita só de verdades", completa o colega
Ledo Ivo. De outra parte, pintores, poetas e intelectuais espanhóis
dimensionam a importância da passagem do poeta brasileiro
que não foi pouca coisa.
Uma
profusão de filmetes domésticos, verdadeiras preciosidades,
completa a riqueza de materiais de Recife/ Sevilha. Importante
como revelação e apetitoso como exercício
de linguagem, o filme de Bebeto Abrantes entra para o rol dos
excelentes perfis documentais recentemente produzidos no Brasil.
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