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 Palavras vivas

 

Revista Época, 18 de outubro de 1999



Palavras vivas

João Cabral de Melo Neto, morto aos 79 anos, conciso e silencioso, abriu-se numa última e rara entrevista a dois cineastas

O poeta não gostava de ser chamado de poeta. Também não gostava do Rio de Janeiro, o lugar que escolheu para viver. Dizia odiar música, mas seus versos trazem embutida a música silenciosa da seca, do lodo e das paisagens rarefeitas que amou. Foi fisgado pelo canto excessivo do flamenco e pela virilidade das touradas. Menino criado nos canaviais, conheceu o mundo como diplomata para acabar eternizando duas cidades, Recife e Sevilha. Homem do Nordeste, uniu o andamento seco da poesia de cordel ao ritmo sincopado da poesia árabe plantada na Espanha. Escapou de “morrer de homenagem”, como disse a Época em junho deste ano, a respeito do primo Manuel Bandeira. Mas foi merecidamente homenageado depois da morte, no sábado 9, aos 79 anos: era o maior poeta vivo da língua portuguesa e um dos maiores do século. Só Drummond pode figurar a seu lado nas letras brasileiras. Homem de vanguarda, João Cabral de Melo Neto foi um dos rarissímos poetas brasileiros de estatura universal. Ao longo desta e das próximas páginas, o leitor encontrará trechos do ainda inédito depoimento que Cabral deu a dois cineastas cariocas para um filme.