Palavras
vivas
João
Cabral de Melo Neto, morto aos 79 anos, conciso e silencioso,
abriu-se numa última e rara entrevista a dois cineastas
O
poeta não gostava de ser chamado de poeta. Também
não gostava do Rio de Janeiro, o lugar que escolheu para
viver. Dizia odiar música, mas seus versos trazem embutida
a música silenciosa da seca, do lodo e das paisagens rarefeitas
que amou. Foi fisgado pelo canto excessivo do flamenco e pela
virilidade das touradas. Menino criado nos canaviais, conheceu
o mundo como diplomata para acabar eternizando duas cidades, Recife
e Sevilha. Homem do Nordeste, uniu o andamento seco da poesia
de cordel ao ritmo sincopado da poesia árabe plantada na
Espanha. Escapou de morrer de homenagem, como disse
a Época em junho deste ano, a respeito do primo Manuel
Bandeira. Mas foi merecidamente homenageado depois da morte, no
sábado 9, aos 79 anos: era o maior poeta vivo da língua
portuguesa e um dos maiores do século. Só Drummond
pode figurar a seu lado nas letras brasileiras. Homem de vanguarda,
João Cabral de Melo Neto foi um dos rarissímos poetas
brasileiros de estatura universal. Ao longo desta e das próximas
páginas, o leitor encontrará trechos do ainda inédito
depoimento que Cabral deu a dois cineastas cariocas para um filme.
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