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O Globo, 21 de fevereiro de 1999



Mapeamento dos ritmos Tupiniquin

Depois de gravar diversas manifestações típicas de Laranjeiras, cidadezinha encravada no interior do Sergipe, o diretor Belisário Franca já se preparava para seguir viagem quando o roteirista Hermano Vianna veio lhe contar que acabara de ouvir a seguinte pergunta de um perplexo morador: “Mas você não filmou o samba de aboio?”. Pois é, há uma variedade de samba de batuque original que atende por este nome. Esta é uma das surpresas reveladas em Música do Brasil, que será exibida pela MTV no segundo semestre deste ano. Em 15 programas de mera hora, a série revela parte da incontável variedade de ritmos existentes em território tupiniquim.

Siri, cururu, house
amazônico e outros estilos

A empreitada monumental tem números grandiosos. As viagens da equipe de Belisário pelo país começaram em maio de 1998 e só foram concluídas na semana passada. Em muitos casos, o grupo captou imagens de festas tradicionais. Durante o carnaval, por exemplo, houve filmagens no Rio, em Salvador e em Mato Grosso, onde o cururo e o siriri são os ritmos que agitam a folia. Ao todo, eram 18 pessoas, carregando uma tonelada e meia em equipamentos. Eles rodaram 55.000 quilômetros, visitaram mais de 80 cidades, registraram cerca de cem diferentes ritmos — coisas tão exóticas quanto o house amazônico e o tal samba de aboio — e trouxeram 600 latas de filmes, o que equivale a cerca de cem horas de pura música nativa. — com certeza uma super- produção, e um dos mais completos registros de música já feitos no país. Além de mostrar que o Brasil não tem só samba, nos preocupamos em caracterizar os lugares onde passamos, imprimindo diversidade humana, paisagística e histórica ao documentário. Este não é apenas um inventário de ritmos; temos também personagens — conta Belisário.

O resultado são imagens belíssimas, como a que mostra o grupo Carrapicho dançando no meio do Rio Amazonas, e um panorama dos muitos tipos de brasileiros que convivem sob a mesma bandeira. Música do Brasil é uma realização da Giros, produtora de Belisário, e da Abril Produções. O projeto, adequado às comemorações dos 500 anos do Brasil, também prevê a confecção de um livro, de um CD- Rom e de pelo menos quatro CDs, que serão lançados pela Abril Music, provavelmente ainda este ano.

A última etapa das filmagens da série de televisão será realizada em março, quando artistas consagrados gravarão depoimentos que serão inseridos nos programas. Na lista de nomes cotados estão Caetano Veloso, João Bosco, Paralamas do Sucesso, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Alguns, como Henrique Cazes e Carlinhos Brown, já toparam participar.

— Com o material que rodamos já temos atrativos suficientes, mas estes notáveis situarão os ritmos historicamente e também dentro de seu próprio trabalho — diz Belisário.

Além de Música do Brasil, o diretor prepara Além-mar, série realizada pela produtora Múltipla que deverá ir ao ar até o final do semestre, num canal de TV por assinatura, e, a seguir, será exibida pela TVE. As filmagens foram feitas em dez países que tiveram colonização portuguesa: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, China, Índia, Malásia, Cingapura, Brasil e Portugal.

A riqueza do patrimônio
cultural brasileiro

A série, fruto de uma pesquisa de cinco anos realizada por Hermano Vianna, tem cinco programas de 50 minutos que procuram mostrar como a herança lusa afetou cada civilização. Há histórias de pessoas comuns, retratadas em situações cotidianas, e de gente ilustre, como o poeta português Eugenio de Andrade.

— Não era preciso que os povos fossem lusófonos, nossa intenção era mostrar os fenômenos que a colonização portuguesa criou. Em Málaca na Malásia, por exemplo, as pessoas são muito cônscias de suas raízes — conta o diretor.

Belisário também dá os últimos retoques em Bem brasileiro, série de 15 programas de 20 minutos sobre o patrimônio cultural do Brasil que o Futura (GloboSat/Net) mostrará em maio. O objetivo é lembrar que, mais que monumentos plantados em praça pública, também se deve incluir sob esta denominação diversas outras manifestações típicas. Bem brasileiro divide com Música do Brasil o título de menina dos olhos da produtora Giros, especializada em documentário para televisão.

— Quisemos escapar daquela idéia antiquada de patrimônio e mostrar que ele está bem mais proximo do que a gente imagina. Das cidades históricas ao maracaru, do jogo de futebol ao acarajé, tudo é patrimônio- diz Bebeto Abranches, que dirigiu a série em parceria com Belisário e escreveu o roteiro com João Alegria.

— Isso abarca quase tudo o que fazemos, o que transforma a série num pequeno olhar sobre a civilização brasileira.

Um ou dois verbos nortearam a realização de cada programa. Num deles, cujo fio condutor é o verbo trabalhar, mostra-se um restaurante carioca famoso, cujo principal produto é a cachaça, e um estilista que se inspira na arte secular das rendeiras nordestinas para criar a moda chamada de mangue beat.

Personalidades que fazem de sua arte nosso patrimônio

- Queremos mostrar que nosso patrimônio cultural também pode ser uma fonte de renda, gerar empregos – explica Abranches.

A seleção de personalidades entrevistadas também ajuda a entender o tom dos programas. A lista tem gente que transforma em patrimonio tudo o que se faz, como Paulinho da viola, Oscar Niemeyer, Cacá Diegues, José Hugo Celidônio, Antônio Nóbrega e Ariano Suassuna.