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Produtora
Carioca Investe no Patrimônio
audiovisual
Foram cinco visitas, seis horas de entrevista, todas às 17 horas
em ponto, para um documentário de exatos 60 minutos. Um vídeo
sobre João Cabral de Melo Neto só poderia ser feito assim, com
extremo rigor e precisão. "Recife/Sevilha", um dos projetos que
a produtora Giros pretende lançar neste ano, vai ser rodado graças
ao apoio do BNDES. "Se a gente chegasse cinco minutos depois ou
antes, ele não nos recebia", lembra o produtor executivo da Giros,
Luiz Antonio Silveira. " Então nós chegávamos antes, esperávamos
na calçada e só batíamos na porta deles às 17 horas." Silveira
e o diretor Belisario Franca, donos da Giros, gravaram os depoimentos
de João Cabral poucos meses antes de o poeta morrer, em 99. Faltava
todo o resto: filmar as cidades que permeiam a obra do autor,
Recife e Servilha, usando como roteiro o depoimento do próprio.
Fazer um documentário sobre a poesia cabralina é, para os donos
da produtora, um grande prazer e um bom negócio. Há três anos
no mercado, a produtora vem se desvencilhando do tradicional meio
de se conseguir verba para filmagem - leis de incentivo, intermináveis
buscas por patrocínio, etc.- para montar um patrimônio audiovisual
e daí extrair sua própria verba. Eles explicam: "Montar um banco
de imagens e ser detentor dos direitos, além de estar sempre rendendo
dinheiro na hora de cede-las, barateia os custos para uma produção
futura da Giros." Para ilustrar essa estratégia mercadológica,
eles usam o exemplo de "Recife/Servilha". "Eu vou para Servilha
fazer esse documentário e se um dia der na telha fazer um documentário
sobre turismo na Espanha, já tenho as imagens da cidade", explica
Belisario. Reconhecida por trabalhos como "Música do Brasil",
feito para MTV, e por programas veiculados no canal Futura, como
"Afinando a Língua", apresentado por Tony Belloto, a Giros já
vem sendo procurada por seu ainda pequeno, mas precioso, banco
de imagens. "Outro dia veio um Alemão em busca de imagens sobre
a música brasileira para um documentário", conta Belisario. Um
ponto a favor da política da Giros é o crescimento de novas tecnologias
de mídia. Silveira e Belisario apostam suas fichas - e suas imagens
- no que ainda está por vir. Além de veicular seus programas em
Tv aberta e fechada, pretendem espalhar seus vídeos pela internet.
"São produtos caros, por isso a gente precisa ter essa oferta
de canais", explica o produtor executivo. A proposta da Giros,
desde o começo, foi produzir para Tv. Nada de fazer cinema, curtas
e outras "produções de risco" que dependam de bilheteria. Para
cada idéia, um negócio fechado com uma emissora. Projetos que
surgem dentro da equipe da Giros, como "Recife/Servilha", são
levadas adiante por terem grande aceitação entre vários canais.
"Acho que aquele papo de 'uma idéia na cabeça e uma câmera na
mão' já era", diz Silveira. "Todo trabalho que a gente faz tem
uma superpesquisa por trás e pode render subprodutos." Da mesma
forma que elaboram projetos e vendem para televisão, a Giros também
aceita encomendas ("desde que sejam programas de conteúdo", avisam
os donos). Recentemente, a produtora fez uma programa para o Discovery
Kids, o "Blast Off: Missão Astronauta", ainda no ar. O trabalho
rendeu uma perceria com o canal americano e a Giros já estuda
um novo programa envolvendo crianças de todo o mundo sobre a escassez
da água no planeta. Funcionando em pequeno apartamento no bairro
do Catete, no Rio, a produtora conta com uma equipe fixa de 11
pessoas e com agregados, conforme a produção. É uma outra forma
de baratear os custos. "A gente percebeu que não é preciso uma
estruturainchada de cem profissionais fixos", explica Belisario.
"Você tem até liberadde de escolher as pessoas certas para cada
produção." Apesar de poderem contar com a receita gerada por eles
mesmos em futuro não muito distantes, os "executivos do audiovisual"
procuram, para o presente, a parceria com alguma grande empresa.
"Acho que a coisa está caminhando para este tipo de parceiros",
diz Belisario. Quando a Europa Ficou Verde e Rosa A voz do morro
atravessou o Atlântico e coloriu a Europa. Sabendo que a velha
guarda da Mangueira faria uma excursão pela Europa, a Giros foi
atrás. Essa foi uma filmagem de "risco", segundo Silveira, por
ter sido feita sem patrocínio e sem acordo anterior. Mas o "on
the road" com a Velha Guarda tem grandes chances de ser bem acolhido
no mercado. Entre os cinco projetos que a giros vai lançar este
ano, "A velha Guarda no velho mundo" talvez seja um dos mais interessantes.
Imagine um grupo de velhinhos, sem falar uma palavra em inglês
ou Francês, passeando pelas ruas de Paris e Londres. Alguém lembrou
de "buena Vista Social Club"?: Pois a idéia é mais ou menos essa.
Para isso, a equipe de filmagem acompanhou cada passo da viagem.
O documentário começa no Rio, com os integrantes arrumando as
malas. "teve até um bota-fora para eles", conta Silveira. Já na
Europa, a equipe da Giros acabou funcionando também como intérprete
e guia da velha guarda, criando uma cumplicidade entre eles. "Eles
estavam sem a estrutura de uma turnê, com pouco dinheiro. Chegaram
a passar o chapéu para ganhar algum trocado", conta Silveira.
Para ilustrar o contraste entre os sambistas e o velho mundo,
filmaram os músicos em lugares óbvios da Europa, como o Rio Sena,
na França. Entre uma apresentação e um passeio, depoimentos dos
veteranos do samba. "Eles falam de tudo, de sexo à vida no morro."
Outro documentário que a Giros lança ainda este ano é uma biografia
de Pixinguinha. Procurados pela família do músico, a Giros deve
começar a filmar em abril, quando um neto de Pixinquinha lança
seu show em que apresenta músicas do avô, mas com novos arranjos.
Os outros vídeos são "Antares", encomendado por uma empresa que
traz companhias de dança para o Brasil. E dá-lhe a equipe de filmagem
seguindo os passos de flamenco e Sara Baras, uma das atrações
retratadas no vídeo. Por fim, em "O Mito e o Espelho", a Giros
dá continuidade ao premiado "O Povo Verdadeiro", encomendado por
Xavantes. Neste, eles dão a voz aos índios de outras tribos brasileiras.
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