Caravela
premiada
O
documentário brasileiro Além-mar ganhou sexta-feira
à noite o troféu de melhor produção
na categoria Série Limitada na l5º Premiação
da Associação Internacional de Documentaristas.
A cerimônia foi às 18h30 (23h30 no Brasil) no Los
Angeles Center Studio, em Hollywood Depois deste prêmio,
só o Oscar, disse o diretor Belisário Franca,
por telefone, antes de participar da festa. É como
ser escolhido ganhador do Prêmio Nobel de Literatura por
um júri formado por escritores."
Além-mar
é o primeiro documentário brasileiro a ganhar o prêmio
da Associação lnternacional de Documentaristas. A
edição deste ano teve 268 inscritos. A produção
exibida de 19 a 23 de abril pelo canal a cabo GNT (Net) venceu a
disputa com outros quatro peso pesados da indústria de docunsentários:
Caos and kings,parceria do Discovery Channel e do casal francês
La Cinq;Intimate universe: the human body,da BBC de Londres;
lnsectiado La Cinq, e Ancient inventions,do Discovery;
A place ealled Chiapas, da americana Betsy Carsos, sobre
a região do Sul do México que é base dos guerrilheiros
do Exército Zapatista de Libertação Nacional,
venceu na categoria Documentário de Longa Metragem. Still
missing,em que a também americana Teresa Torini mergulha
na tragédia da violência sexual contra crianças,
foi o vencedor na categoria Documentário de Curta Metragem.
A
premiação da Associação Internacional
de Documentaristas pode ser tanto uma porta aberta para o Oscar
como um reconhecimento para muito além das honrarias. Crumb,que
Terry Zwigoff fez em 1995 sobre o cartonista Robert Crumb, criador
do gato Fritz, já foi premiado pela AID. Basquete blues,
documentário de Steve James que acompanha a carreira de dois
jovens atletas de basquetebol que trocaram as gangues de Chicago
pela vitória nas quadra. foi mais longe: ganhou o prêmio
da associação e chegou a ser considerado o melhor
filme americano do ano, embora não tenha sido sequer indicado
ao Oscar da categoria. The personals, com o qual a chinesa
Keiko Ibi retrata a solidão de velhos judeus, levou o Oscar
de Curta-Metragem deste ano depois de disputar o prêmio da
Associação Internacional de Documentaristas no ano
passado.
Além-mar ganhou numa categoria que não disputa
o Oscar. Belisário Franca pretende fazer no ano que vem uma
versão reduzida dos cinco episódios da série
para tentar uma indicação da Academia de Cinema de
Hollywood. Depois do prêmio da Associação
Internacional de Documentaristas, só falta o Oscar,
afirmou. "Ganhamos com um documentário na contramão
do que normalmente é premiado. A AID quase sempre da prêmio
a dramas reais. Além-mar é um projeto otimista
com uso lado poético, Ainda assim, emplacou.
O
documentário dirigido por Belisário Franca e por Hermano
Vianna é uma viagem antropológica aos paises em que
a herança portuguesa ultrapassa os limites da língua.
A série de cinco programas revela que a herança lusitana
sobrevive até hoje por conta das expedições
medievais tanto no carnaval de rua da Malásia, no Sudoeste
da Ásia, como na profusão de cruzeiros espalhados
nos quintais das casas de Goa. Há restos do antigo império
lusitano também numa comunidade de pescadores eurasianos
de Cingapura, no Sudeste Asiático, que adotou como língua
o kristang uma mistura de português criollo com a estrutura
gramatical do malaio para manter a identidade.
Além-mar foi filmado em película super 16 milímetros
com tecnologia de steadycam. Antes da produção, Hermano
Viana e Belisário Franca, criadores do extinto Brasil Legal,
da TV Globo, fizeram quatro anos de pesquisa. Durante a realização
consumiram 1,2 milhões. A TV educativa do Rio foi sócia
majoritária da empreitada tacada em parceria com a produtora
Múltipla.
A serie revela precionismo no enquadramento de cada depoimento
e cuidado na escolha de cada entrevistado: José Saramago,
escritor portugues ganhador do nobel de literatura, José
Ramos Horta, autor timorense agraciado com o nobel da paz, e José
craveirinha, poeta maçombicano que conquistou o prêmio
Camões, são algumas das vozes de além-Mar.
Os cinco episódios são recheados, claro, com muita
música, do fado renovador de Paulo Bragança à
bossa nova de releitura exótica das goenses Irmãs
Valadares para copacabana, de Braguinha, passando pelo samba com
sotaque caboverdiano de cesária evora em Mulata assanhada
de Ataulfo Alves.
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