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Jornal do Brasil, 31 de outubro de 1999



Caravela premiada

O documentário brasileiro Além-mar ganhou sexta-feira à noite o troféu de melhor produção na categoria Série Limitada na l5º Premiação da Associação Internacional de Documentaristas. A cerimônia foi às 18h30 (23h30 no Brasil) no Los Angeles Center Studio, em Hollywood “Depois deste prêmio, só o Oscar”, disse o diretor Belisário Franca, por telefone, antes de participar da festa. “É como ser escolhido ganhador do Prêmio Nobel de Literatura por um júri formado por escritores."

Além-mar é o primeiro documentário brasileiro a ganhar o prêmio da Associação lnternacional de Documentaristas. A edição deste ano teve 268 inscritos. A produção exibida de 19 a 23 de abril pelo canal a cabo GNT (Net) venceu a disputa com outros quatro peso pesados da indústria de docunsentários: Caos and kings,parceria do Discovery Channel e do casal francês La Cinq;Intimate universe: the human body,da BBC de Londres; lnsectiado La Cinq, e Ancient inventions,do Discovery; A place ealled Chiapas, da americana Betsy Carsos, sobre a região do Sul do México que é base dos guerrilheiros do Exército Zapatista de Libertação Nacional, venceu na categoria Documentário de Longa Metragem. Still missing,em que a também americana Teresa Torini mergulha na tragédia da violência sexual contra crianças, foi o vencedor na categoria Documentário de Curta Metragem.

A premiação da Associação Internacional de Documentaristas pode ser tanto uma porta aberta para o Oscar como um reconhecimento para muito além das honrarias. Crumb,que Terry Zwigoff fez em 1995 sobre o cartonista Robert Crumb, criador do gato Fritz, já foi premiado pela AID. Basquete blues, documentário de Steve James que acompanha a carreira de dois jovens atletas de basquetebol que trocaram as gangues de Chicago pela vitória nas quadra. foi mais longe: ganhou o prêmio da associação e chegou a ser considerado o melhor filme americano do ano, embora não tenha sido sequer indicado ao Oscar da categoria. The personals, com o qual a chinesa Keiko Ibi retrata a solidão de velhos judeus, levou o Oscar de Curta-Metragem deste ano depois de disputar o prêmio da Associação Internacional de Documentaristas no ano passado.

Além-mar ganhou numa categoria que não disputa o Oscar. Belisário Franca pretende fazer no ano que vem uma versão reduzida dos cinco episódios da série para tentar uma indicação da Academia de Cinema de Hollywood. “Depois do prêmio da Associação Internacional de Documentaristas, só falta o Oscar”, afirmou. "Ganhamos com um documentário na contramão do que normalmente é premiado. A AID quase sempre da prêmio a dramas reais. Além-mar é um projeto otimista com uso lado poético, Ainda assim, emplacou.”

O documentário dirigido por Belisário Franca e por Hermano Vianna é uma viagem antropológica aos paises em que a herança portuguesa ultrapassa os limites da língua. A série de cinco programas revela que a herança lusitana sobrevive até hoje por conta das expedições medievais tanto no carnaval de rua da Malásia, no Sudoeste da Ásia, como na profusão de cruzeiros espalhados nos quintais das casas de Goa. Há restos do antigo império lusitano também numa comunidade de pescadores eurasianos de Cingapura, no Sudeste Asiático, que adotou como língua o kristang — uma mistura de português criollo com a estrutura gramatical do malaio — para manter a identidade.

Além-mar foi filmado em película super 16 milímetros com tecnologia de steadycam. Antes da produção, Hermano Viana e Belisário Franca, criadores do extinto Brasil Legal, da TV Globo, fizeram quatro anos de pesquisa. Durante a realização consumiram 1,2 milhões. A TV educativa do Rio foi sócia majoritária da empreitada tacada em parceria com a produtora Múltipla.

A serie revela precionismo no enquadramento de cada depoimento e cuidado na escolha de cada entrevistado: José Saramago, escritor portugues ganhador do nobel de literatura, José Ramos Horta, autor timorense agraciado com o nobel da paz, e José craveirinha, poeta maçombicano que conquistou o prêmio Camões, são algumas das vozes de além-Mar.

Os cinco episódios são recheados, claro, com muita música, do fado renovador de Paulo Bragança à bossa nova de releitura exótica das goenses Irmãs Valadares para copacabana, de Braguinha, passando pelo samba com sotaque caboverdiano de cesária evora em Mulata assanhada de Ataulfo Alves.