Abazei'õréhã
Rówasu'u/ O tempo do Oi'ó
"Antes
dos meninos entrarem no Hö acontece o Oi'ó.
Quando o milho está crescendo, é o tempo
do Oi'ó. Da luta com a raiz do oi'ó.
Os maiores, os ai'repudu, batem mesmo! Não
ficam com dó. Os pequenos choram. E assim. Antes
da entrada no Hö acontece a última luta
de Oi'ó. Aí os meninos todos batem mesmo,
sem dó. Porque é a última luta.
Assim vamos conhecendo cada menino. Sua coragem, seus
medos, suas fraquezas. Na luta eles vão se revelando.
O pai orienta. Essa é a antiga Tradição.
Transmitida de geração a geração
No
tempo dos nossos ancestrais é que foram divididos
os grupos de geração. É assim.
São nomes antigos que foram transmitidos ao longo
do tempo. Etêpa, Tirówa, Nozo'u Abare'u,
Sadaró, añanarówa, Hötörã
e Ai'rere. Todos nomes de geração.
Quando
oswapté saem do Hö, como ritéiwa,
voltam a viver com os pais. É o tempo de
casar. No Warã é que nós
conhecemos nossa futura esposa. A mãe leva a
filha para conhecer o esposo. Essa tradição
é antiga. Nós seguimos essa tradição.
Não casamos pela nossa vontade, seguimos a orientação
dos nossos pais. Nossa sogra faz um bolo de milho para
apresentar a filha.
Nossos
ancestrais não deixaram papéis para nós.
Temos a história na memória. Só
na memória. E mesmo assim, com a palavra, mantemos
nossa história viva. Contando um para o outro.
A palavra, de uma geração para outra geração.
Eu sigo essa tradição de transmitir a
cultura através da palavra. Mesmo sozinho, mesmo
cercado pelos warazu.
E
assim que estou contando para vocês. Como vivemos.
Que
vocês possam ouvir minha palavra enquanto eu ainda
estou vivo.
Que
as palavras, transformadas no papel deste livro, sejam
uma forma de fortalecer o espírito criador contra
o avanço do lado obscuro. Que vocês possam
me ver que seus filhos possam ver os meus filhos, para
que se mantenha viva a força da Criação.
Estou
aqui com a verdade, para doar o mais verdadeiro de minha
Tradição. E isso dói no meu coração.
Me traz dúvida e dor. Porque não sei se
vocês vão ser capazes de compreender o
que eu trago para compartilhar.
Eu
me chamo Sereburã. É assim que eu vou
falar sobre a minha Tradição."
<<De
onde vem o povo A'uwê
Do
livro Wamrêmé Za'ra, Nossa Palavra -
Mito e História do Povo Xavante, publicado
pela editora SENAC
|